Rastreamento e grafos de transações · Aula 4 de 6
Rastreamento por exchanges e serviços de custódia
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Mais cedo ou mais tarde, quase todo rastreamento chega a uma exchange, corretora, carteira custodial, processador de pagamentos ou site de apostas. Esse limite costuma ser o ponto em que uma investigação passa a ter chances de sucesso, pois o serviço conhece seus clientes, mantém registros e pode bloquear fundos. É também onde o rastreamento on-chain para e onde relatórios frágeis extrapolam as evidências. Esta aula aborda como os serviços aparecem na blockchain, como comprovar que fundos entraram em um deles, o que se pode afirmar sobre seu funcionamento interno, quando parar e solicitar registros e como retomar o rastreamento a partir dos saques.
Como um serviço de custódia aparece na blockchain
A maioria das exchanges centralizadas segue uma arquitetura semelhante:
- Endereços de depósito: cada cliente recebe um ou mais endereços que pertencem à exchange, mas são atribuídos à conta desse cliente; os fundos enviados para esses endereços são creditados no livro-razão interno da exchange.
- Consolidações: a exchange move periodicamente fundos de muitos endereços de depósito para uma carteira quente central: uma transação que reúne muitas entradas em blockchains UTXO ou, no Ethereum, uma série de transferências para o mesmo destino, muitas vezes depois que a exchange envia um pouco de ETH para o gas.
- Armazenamento a frio: a maior parte das reservas é movida da carteira quente para carteiras offline ou de múltiplas assinaturas e retorna quando necessário.
- Saques: pagos a partir da carteira quente, frequentemente agrupados em uma única transação com muitas saídas.
Alguns serviços usam, em vez disso, endereços de depósito omnibus: um único endereço recebe fundos de todos os clientes, e o cliente é identificado por uma tag ou memo incluído na transação, como a tag de destino no XRP Ledger ou o campo memo no Stellar. Nesse caso, o endereço identifica apenas o serviço; a tag identifica o cliente, e um depósito enviado sem ela geralmente exige recuperação manual pelo serviço.
Uma sequência fictícia no Ethereum mostra o padrão de depósito e consolidação:
bloco de para valor (ETH) observação
21004112 0xF00d…11 → 0x7c3E…a2 2.5000 depósito de carteira sob investigação
21004140 0x9aB4…07 → 0x7c3E…a2 0.7500 segundo remetente, mesmo endereço de depósito
21004233 0x7c3E…a2 → 0xE1f9…44 3.2489 consolidação para carteira quente (3,25 menos gas)
21004990 0xE1f9…44 → 0x51e0…3b 3.1000 saque por algum cliente
As três primeiras linhas são evidências fortes: 0x7c3E…a2 encaminha tudo para 0xE1f9…44, que está rotulado como a carteira quente da exchange, portanto é muito provável que 0x7c3E…a2 seja um endereço de depósito dessa exchange, atribuído a uma única conta. Duas carteiras diferentes enviando fundos para um mesmo endereço de depósito também sugerem que ambas estão ligadas ao mesmo cliente (Aula 4.3). A quarta linha não pode ser vinculada ao depósito de forma alguma.
Nem todo serviço encerra o rastro, portanto classifique-os antes de começar:
| Tipo de serviço | Quem mantém a custódia dos fundos | O rastreamento on-chain continua? |
|---|---|---|
| Exchange centralizada, corretora, carteira custodial | O serviço, em carteiras compartilhadas | Não; os registros existem off-chain, vinculados a uma conta |
| Serviço de swap instantâneo sem contas | O serviço, brevemente | Não; os registros costumam ser limitados (valores, endereços, dados de IP) |
| DEX, protocolo de empréstimos, ponte de contrato inteligente | Um contrato; o usuário mantém o controle | Sim; os eventos do contrato mostram o que saiu e para quem |
| Processador de pagamentos | O processador e, depois, o comerciante | Não; o comerciante e o pedido constam nos registros do processador |
As linhas não custodiais representam mecanismos, e não contrapartes; o rastreamento por esses mecanismos é abordado no Módulo 5.
Comprovação do limite do serviço
A questão pericial é específica: com que fundamento você afirma que um endereço é um endereço de depósito de determinado serviço, e qual é a força desse fundamento? Usando os graus da Aula 3.2:
| Fundamento | O que demonstra | Grau típico |
|---|---|---|
| Os próprios registros do serviço confirmam o endereço e a conta | Endereço, conta e serviço | B (corroborado por registros) |
| O próprio serviço publica o endereço, por exemplo, em uma lista de prova de reservas | O endereço pertence ao serviço | B para o serviço; a conta continua desconhecida |
| O endereço encaminha fundos para uma carteira quente que, por sua vez, tem atribuição bem fundamentada | Endereço de depósito desse serviço | C, uma única heurística |
| Um rótulo de terceiro com fonte e data | Depende do fundamento do rótulo | C ou inferior até ser verificado |
| Um rótulo de origem ou antiguidade desconhecida | Nada por si só | Não pode ser relatado como achado |
Registre o fundamento da atribuição em uma entrada própria, com sua fonte e data de consulta, para que o registro do salto possa citá-lo (Aula 4.6). Normalmente, o fluxo para o endereço é de grau A, enquanto a afirmação de que o endereço pertence a um serviço permanece no grau C até que o serviço a confirme.
Dentro da caixa-preta
Depois que os fundos são consolidados em carteiras compartilhadas, o dinheiro do cliente se torna um lançamento em um livro-razão privado. Nele, o cliente pode negociar outros ativos, transferir para outro cliente sem qualquer transação on-chain, sacar para uma conta bancária ou sacar criptoativos provenientes do depósito de outra pessoa. Um saque posterior é pago com quaisquer moedas que a carteira quente mantenha. Aplicar FIFO ou haircut por meio de uma carteira quente produz números, mas eles descrevem a regra, não os livros contábeis do serviço; por isso, a maioria dos peritos trata um serviço rotulado como ponto de parada e relata "depositado em", não "passou por".
| Sustentado por dados on-chain | Não sustentado por dados on-chain |
|---|---|
1,20000000 BTC chegaram ao endereço de depósito bc1q…dx7e na transação 9c1e…44ab | "Os fundos foram então sacados para bc1q…h4k2" |
| O endereço de depósito encaminhou seu saldo para a carteira quente do serviço | "O investigado ainda mantém os fundos na exchange" |
| Outros depósitos chegaram ao mesmo endereço de depósito, listados na tabela 3 | "O saque de 1,19 BTC 17 minutos depois era o mesmo dinheiro" |
A coluna da esquerda é o que um laudo pericial declara. A coluna da direita exige registros.
O limite não é um beco sem saída, mas um ponto de transição. A partir da blockchain, ainda é possível estabelecer qual serviço recebeu os fundos e com que fundamento; o endereço de depósito, que na maioria das arquiteturas corresponde a uma única conta de cliente (ou o endereço omnibus mais a tag); os depósitos exatos com txid, altura do bloco, horário UTC, ativo, valor, caminho, número de saltos e método de alocação; e outros depósitos no mesmo endereço, que podem revelar mais atividades do investigado ou outras vítimas.
Quando parar e solicitar registros
Interromper o trabalho on-chain em um serviço é uma decisão, e as anotações do caso devem registrar quando e por que ela foi tomada. Pare e solicite registros quando:
- os fundos tiverem entrado em um serviço de custódia com fundamento declarado, idealmente de grau B ou C;
- o trabalho on-chain adicional só puder produzir inferências sobre o funcionamento interno;
- os fundos ainda puderem estar na conta, de modo que a demora prejudique a recuperação;
- o pacote da solicitação estiver pronto: endereços de depósito ou tags, txids com referências a saídas ou logs, valores em unidades-base, horários UTC, o caminho, o método e os graus.
Quem pode obter registros, e como, depende da jurisdição. De modo geral, a solicitação parte de uma autoridade competente (polícia, Ministério Público, unidade de inteligência financeira ou juízo) ou de uma vítima por meio de um processo civil e segue estas etapas:
| Etapa | Finalidade |
|---|---|
| Solicitação de preservação | Preservar registros antes da exclusão de rotina |
| Bloqueio ou retenção | Impedir o saque de fundos ainda na conta, muitas vezes em caráter urgente |
| Ordem de apresentação de registros ou solicitação de informações | Obter documentos de identidade, endereços IP e dispositivos de login, lançamentos no livro-razão, destinos de saque e contas vinculadas |
| Cooperação internacional | Quando o serviço está no exterior: assistência jurídica mútua (Recomendação 37 do FATF) ou outras formas de cooperação (Recomendação 40); veja a Aula 1.3 |
A preservação e o bloqueio vêm primeiro, pois um saldo em uma carteira quente pode sair em minutos; a análise continua em paralelo. Após o furto na Bybit em 2025, por exemplo, o FBI publicou dezenas de endereços vinculados à lavagem e pediu a exchanges, pontes e outros serviços que bloqueassem transações derivadas deles. A elaboração da solicitação é abordada na Aula 1.4. Para o rastreamento, peça o necessário para retomá-lo: o livro-razão interno completo da conta no período (depósitos, negociações e conversões, transferências internas, saques em moeda fiduciária e criptoativos) e, para cada saque de criptoativos, o ativo, a blockchain, o valor, a taxa, o endereço de destino, o txid e o horário com seu fuso horário. Peça também outros endereços de depósito atribuídos à conta, endereços de saque salvos e contas vinculadas por dispositivo, endereço IP ou instrumento de pagamento, em formato legível por máquina. Mantenha o pacote curto e preciso: a equipe de conformidade do destinatário pesquisará por endereço e txid, não pela narrativa.
Análise a partir dos saques
Quando os registros chegam, o rastreamento é retomado a partir dos saques. Continuando o caso da Aula 3.2: a Exchange K informa que o depósito de 1,2 BTC foi creditado, que a conta também mantinha outros fundos e que realizou estes saques:
| Registro | Horário (UTC) | Ativo e blockchain | Valor | Destino | Txid informado |
|---|---|---|---|---|---|
| W-1 | 2026-03-02 14:40 | BTC, Bitcoin | 0,50000000 | bc1q…h4k2 | 7e21…b0c4 |
| W-2 | 2026-03-02 15:05 | USDT, Tron | 25.000,00 | T…9qLm | c3d9…71aa |
| W-3 | 2026-03-03 09:12 | BTC, Bitcoin | 0,30000000 | bc1q…m81z | 0b6f…e5d2 |
Cada saque informado é conferido na blockchain antes que qualquer análise seja construída com base nele:
-- Conferir saques de Bitcoin informados com as saídas on-chain
SELECT r.record_id, r.txid, r.dest_address,
r.amount_sat AS reported_sat,
o.value AS onchain_sat,
r.amount_sat - o.value AS difference_sat,
o.block_number, o.block_timestamp
FROM provider_withdrawals r
LEFT JOIN outputs o ON o.transaction_hash = r.txid
AND o.address = r.dest_address
WHERE r.chain = 'bitcoin'
ORDER BY r.requested_at;
provider_withdrawals é a exportação do serviço carregada como uma tabela do caso; outputs segue o esquema genérico das Aulas 2.7 e 2.9. A junção à esquerda mantém todos os registros, mesmo quando não existe uma saída correspondente. Suponha que W-1 retorne um valor on-chain de 49.990.000 satoshis: a diferença de 10.000 satoshis corresponde à taxa de saque publicada pela exchange, portanto o registro informa o valor antes da taxa. Suponha que W-3 não retorne nenhuma saída: o txid existe, mas paga a um endereço diferente. Essa é uma divergência a ser submetida ao serviço, não corrigida silenciosamente. W-2 é conferido da mesma forma nas transferências de tokens da Tron. A autenticação mais completa dos registros do provedor é abordada na Aula 7.5.
Disso decorrem três pontos. Primeiro, um saque confirmado tanto pelo registro quanto pela blockchain é um vínculo de grau B entre a conta e o destino. Segundo, a conversão para USDT na Tron é visível apenas nos registros: o rastreamento mudou de ativo e de blockchain dentro da caixa-preta. Terceiro, o próprio livro-razão interno é uma conta com fundos misturados. Os 1,2 BTC foram creditados em uma conta que mantinha outros fundos, portanto determinar quanto de cada saque corresponde ao valor da vítima volta a ser uma questão de alocação, calculada sobre os lançamentos do livro-razão com um método declarado (Aula 3.3).
Correlação de horário e valor
Sem registros, ou enquanto aguardam por eles, os peritos frequentemente procuram um saque que se assemelhe ao depósito. Isso é uma inferência, de grau D, e seu valor depende de quantas alternativas existem. Neste caso, a carteira quente realizou 212 saques na hora seguinte ao depósito, nove deles entre 1,15 e 1,20 BTC. Um conjunto de nove candidatos é uma pista a priorizar, não um vínculo.
A correlação também falha justamente quando mais importa. Os registros mostram saques de 0,5 e 0,3 BTC e uma conversão para uma stablecoin sacada em outra blockchain; uma busca por valor e horário de cerca de 1,2 BTC teria apontado com confiança para um cliente sem relação com o caso. Use a correlação para formular perguntas ao serviço ("confirme a conta associada ao depósito bc1q…dx7e e seus saques entre 14:00 e 16:00 UTC") e, se for relatá-la, informe o tamanho do conjunto de candidatos e a janela utilizada.
Serviços aninhados e processadores de pagamentos
Nem todo serviço de custódia é uma exchange, e alguns exigem mais de uma solicitação.
- Serviços aninhados: uma corretora, mesa de swap ou exchange menor que mantém uma conta em uma grande exchange. Os fundos do endereço de depósito do serviço aninhado pertencem aos clientes dele, portanto os registros da grande exchange identificam o intermediário, e uma segunda solicitação é necessária, muitas vezes em outra jurisdição.
- Processadores de pagamentos: muitos geram um novo endereço para cada fatura e consolidam os fundos em suas próprias carteiras. Seus registros identificam o comerciante e o pedido; o comerciante pode manter os dados do comprador, o que exige uma segunda solicitação.
- Carteiras custodiais, sites de apostas e mesas OTC: mantêm fundos compartilhados como as exchanges, com registros que variam de detalhados a limitados. Um serviço sem verificações de identidade ainda pode manter endereços IP, dados de dispositivos, endereços de e-mail e destinos de saque.
A invasão da exchange Bitfinex em 2016 mostra essa transição em grande escala. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, o invasor enviou 119.754 BTC para uma única carteira em mais de 2.000 transações não autorizadas e, ao longo de cerca de cinco anos, aproximadamente 25.000 BTC saíram dela por meio de contas abertas sob identidades falsas em exchanges e mercados da darknet (contas no mercado AlphaBay serviram como passagem, com depósitos de entrada e saídas de valores equivalentes), conversões, inclusive para moedas de privacidade, e serviços de mistura. Cada serviço de custódia interrompeu o rastro on-chain e também foi uma fonte de registros: os fundos rastreados até um serviço que vendia cartões-presente por criptomoedas levaram, por meio dos registros de onde um cartão foi resgatado, aos réus, e um mandado de busca então permitiu obter o conteúdo de uma conta de armazenamento em nuvem que mantinha um arquivo criptografado com as chaves privadas da carteira (Aula 7.5). Os investigadores descriptografaram o arquivo em 31 de janeiro de 2022 e, entre 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2022, usaram as chaves para apreender o saldo restante da carteira, de aproximadamente 94.636 BTC. O rastreamento on-chain encontrou os pontos de chegada aos serviços; os registros off-chain preencheram as lacunas.
Para cada serviço, documente o limite da mesma forma: o fundamento da atribuição do serviço, os depósitos exatos, as solicitações urgentes enviadas e o que os registros acrescentaram posteriormente. O rastro é interrompido na blockchain, mas não nos autos do caso.
Foco no exame: a arquitetura on-chain de uma exchange custodial (endereços de depósito, consolidações, carteiras quentes e frias, saques em lote) e endereços omnibus com tags ou memos; quais tipos de serviço encerram o rastreamento on-chain; a atribuição de grau à afirmação de que um endereço é um endereço de depósito de um serviço; quais declarações sobre fundos dentro de um serviço são e não são sustentadas por dados on-chain; critérios para parar e solicitar registros, priorizando preservação e bloqueio; os campos do livro-razão e dos saques necessários para retomar um rastreamento; a conferência dos saques informados na blockchain, incluindo diferenças de taxas e divergências; o livro-razão interno como uma conta com fundos misturados; a correlação de valor e horário como pista de grau D com um conjunto de candidatos declarado; serviços aninhados e processadores de pagamentos que exigem uma segunda solicitação.